Esses dias fiquei pensando em como, de maneira geral, utilizamos mal a língua portuguesa. É comum não analisarmos muito se a palavra que vamos dizer é a mais adequada para preencher aquela lacuna da fala. Usamos palavras sinônimas, ou com sentido similar, porque se aproximam daquilo que queremos dizer, o que muitas vezes pode dar a idéia de um dizer equivocado, mesmo que num primeiro momento assim não pareça.
Pensei mais especificamente na profunda diferença entre as palavras querer e precisar, e de como as crianças são introduzidas nos significados destas duas palavras, que a bem dizer norteiam muito nossas vidas.
Lembrando da Pirâmide de Abraham Maslow, autor que fala da hierarquia das necessidades do ser humano e diz que as necessidades básicas devem ser satisfeitas antes das necessidades de auto-realização, há uma escalada para se chegar até o topo.
Em poucas pinceladas, dá para dizer que Maslow define um conjunto de cinco necessidades que iniciam na base da pirâmide com as necessidades fisiológicas (fome, sede, sono, abrigo etc.), passando pela de segurança (abrigo, emprego, saúde etc.), necessidades sociais (afeto, relações sociais), auto-estima (reconhecimento), e por fim necessidades de auto-realização (ser o máximo de si próprio, espiritual).
Estive pensando dentre estas necessidades, onde se situam o querer e o precisar, e de que forma estes verbos são conjugados e ensinados às crianças. Segundo Maslow, fica claro que quando se fala em sono não se pensa em marca de colchão; em fome, não se pensa em marca de comida, em sede, é apenas água o que realmente precisamos. Talvez queiramos refrigerante, mas precisamos apenas de água para saciar a sede.
Talvez queiramos ter vinte sapatos no roupeiro, mas precisamos de tantos pares se só temos dois pés? Quem sabe dois ou três sapatos bastariam, e quando um se fosse, seria reposto e a viagem continuaria... Aliás, viagens nos dão ótimos parâmetros do quanto realmente precisamos ou queremos coisas. Alguém precisaria ter uma bolsa Louis Vuitton numa praia deserta? Ou seria ótimo um protetor solar ou apenas uma sombra de árvore para não arder à noite pelo sol escaldante? Precisaria de água ou quereria água? Precisaria. Para não morrer desidratado, precisaria. Não seria um querer, seria um precisar de água.
E assim podemos subir a pirâmide nos questionando do que realmente precisamos, o que precisamos e queremos, o que apenas queremos pois estamos contaminados pela mídia que abusa da nossa ingenuidade e nos invade criando necessidades que até outrora não existiam.
E o que tudo isso tem a ver com educação financeira? Absolutamente tudo! Se formos mais autônomos e relativamente impermeáveis aos dizeres midiáticos, questionando mais, conseguiremos ter uma clara noção do que precisamos, do que queremos, do que podemos adiar comprar, do quanto podemos aguardar para comprar, e guardar para um futuro de necessidades ou sonhos maiores.
Maslow é criticado por muitos, mas eu ainda o acho muito certeiro e atual. Na Psicologia e no Marketing, ainda nos surpreendemos com as possibilidades no entendimento das necessidades do ser humano que a Pirâmide propõe. Nas entrelinhas, já falava ele da diferença entre precisar e querer, que é muito grande.
Precisar é da ordem da necessidade. Querer é da ordem do desejo. Necessidade diz respeito a todos os seres humanos e sua sobrevivência. Desejo diz respeito a vontades ocultas, perspassadas pelas necessidades inconscientes do indivíduo, de afeição, apreço, auto-estima, potência... Enfim, coisas outras que não da ordem da sobrevivência da espécie.
Fonte: Portal Mais Ativos, por Marisa Gabbardo