Há vários anos trabalho com educação financeira infantil. Em função disso, até então, vinha considerando os álbuns de figurinhas unicamente como caça-níqueis. Um jeito de envolver as crianças no propósito de colecionar cromos para serem colados em álbuns que, completos ou não, pouco depois são descartados. Dinheiro posto fora, em outras palavras.
Proliferam anualmente álbuns de todas as naturezas: temáticos, de personagens, de filmes. Em comum, todos estimulam as crianças a comprar figurinhas semanalmente. E são tantas as variedades que às vezes é difícil até encontrar outras crianças que façam a mesma coleção.
Mas também para isso inventaram uma solução: qualquer um pode pedir as figurinhas que precise via Internet. Assim, basta dinheiro e a coleção se completa. Essa parte já não funciona como caça-níquel. Funciona como papa-mesadas e muitas vezes avança até no dinheiro dos pais. Alguns por dificuldade para dizer não aos filhos. Além de rasgar dinheiro, ainda acaba com a graça da brincadeira, com as expectativas, com a incerteza. Com o fenômeno social.
Mas minha formação básica é Administração de empresas. Participei de vários cursos e seminários sobre gestão contemporânea. Também tenho interesse sobre psicologia comportamental. Perdi as contas dos livros e artigos que li falando sobre a necessidade de mudanças de paradigmas. Sobre sair do quadrado. Então procurei olhar os álbuns de figurinhas também sob outra ótica. A do fenômeno social. Até que deparei-me com o álbum da Copa 2010.
Primeiro, porque tenho um filho de oito anos apaixonado por futebol. Ele gosta muito. Acompanha, entende. Está mais atualizado do que eu. E como bom brasileiro, também estou na expectativa da Copa. Quero ver o Brasil campeão e a Argentina eliminada na primeira fase.
Desta vez eu mesmo dei o álbum a ele. Quebrei meu primeiro paradigma nessa questão. Afinal, ele gosta. Sabia que ele curtiria. Teríamos mais momentos e assuntos para compartilhar.
Fico feliz por ter feito isso. Esse álbum é o maior sucesso do momento. Há muita gente colecionando. Praticamente todos os coleguinhas e amiguinhos dele. O fenômeno social é intenso. Trocar figurinhas, “bater o bafo”, comentar sobre “as difíceis”, garimpar as raras, ler e comentar sobre cada jogador, cada país, cada estádio e cada seleção passou a ser o assunto do momento. Difícil a situação dos meninos que não estão fazendo essa coleção. E pasmem. Eles também aprendem com isso. Reconhecem as bandeiras dos países, buscam a localização e até informações sobre a história (pelo menos do futebol).
E o fenômeno se alastrou. Vejo isso também no trabalho. Nas festas – de crianças e de adultos, em clubes, nas conversas de avião. Já vi executivos trocando figurinhas no aeroporto.
Mas esta semana me rendi por completo. Alguns dias antes recebi a dica da mãe de um coleguinha do Leo, sobre um local de encontro espontâneo para trocas de figurinhas. A banca da 106 Norte (em Brasília, onde moro). Perguntei inocentemente qual o dia e horário dos encontros. A resposta foi no mínimo inusitada. A qualquer dia, a qualquer hora. Achei estranho, e continuamos a conversa, sobre outros assuntos.
Na sexta, antes do almoço, convidei meus filhos e fomos dar uma passadinha na banca da 106. Para nossa surpresa, havia umas vinte pessoas ali. Chegava e saía gente a todo instante. Pais com filhos. Avós com netos. Netos sem avós. Avós sem netos. Mães, jovens, adultos, meninos e meninas de todas as idades. Todos reunidos voluntariamente com um único propósito: trocar figurinhas do álbum da Copa.
Achei fantástico. A diversão foi muito boa. E meu filho conseguiu trocar muitas figurinhas novas. Ele achou o máximo. Eu também. Claro!
Ontem, sábado, depois da partida de futebol do campeonato que ele participa, demos mais uma passadinha por lá. A foto diz tudo. Eram mais de cem pessoas. Talvez umas duzentas. Quase inacreditável. Fiquei feliz porque meu filho está tendo a oportunidade de participar desse fenômeno social. Está certo. Isso tem custo. Mas está valendo à pena. E nós ficamos ainda mais próximos. Conversamos a respeito. Falamos sobre as trocas e negociações realizadas.
E como este blog é sobre educação financeira, a única coisa sobre o que costumo escrever, vamos aproveitar algumas lições e experiências desse fenômeno social para fazer um paralelo com esse assunto:
- O escambo é a mais primária das relações comerciais. Voltou à moda. É bom que as crianças aprendam como funciona. Muitas coisas na humanidade são cíclicas.
- A forma como as pessoas se relacionam nas trocas de figurinhas ajuda as crianças a se prepararem para o mundo das finanças e dos negócios. Tem gente bem intencionada. Tem os espertinhos, os espertalhões, os inocentes. É bom aprender a reconhecer cada tipo. E a lidar com eles.
- Figurinhas do mesmo álbum, feitas da mesma matéria, têm valores diferentes entre si. Seja pela raridade, pela beleza, pelo personagem ou por outros fatores que não sabemos definir. Mas o mercado se ajeita. Naturalmente os preços de equilíbrio são estabelecidos de acordo com a lei da oferta e da procura.
- Há pessoas que procuram ajudar os outros. Trocam figurinhas mesmo que não tenham interesse nas figurinhas da contra-parte, mas fazem isso porque o outro precisa. Isso é bonito demais. Gostei quando meu filho fez isso por um desconhecido. Vários desconhecidos fizeram isso por ele também.
- Um “mercado” desse tamanho precisa ser organizado. De maneira espontânea. Como é bonito ver tantas pessoas juntas sem nenhum tipo de confusão ou desrespeito. Crianças agindo como adultos e adultos pensando como crianças. Que lição bonita de cidadania.
- E apesar de a própria banca e algumas pessoas venderem as figurinhas abertas, pouca gente se dispõe a comprar. As pessoas preferem comprar pacotinhos fechados e depois sair procurando parceiros para trocar as repetidas pelas faltantes. Isso é muito mais legal. Afasta o poderio econômico da relação. É preciso se esforçar. Procurar. Contar com a sorte. Com a empatia alheia. Aprende-se a negociar.
Esse mercado contribui também para reduzir o custo final da coleção. No sábado, por exemplo, ficamos (vejam que já me incluí como sócio) sem nenhuma figurinha repetida. Conseguimos trocar todas. Tivemos 100% de aproveitamento. E já completamos as páginas do Brasil, a primeira seleção. A da Argentina? Já tem um jogador colado de cabeça para baixo, por via das dúvidas. Iniciativa dele!
Por causa desse “aquecimento do mercado”, quando completarmos o álbum, o “custo marginal” e “as sobras”, serão mínimas. E o benefício será maior do que apenas completar o álbum. Estamos, JUNTOS, escrevendo páginas interessantes da nossa história. Pelo menos em relação a esse álbum já mudei meu ponto de vista. É um fenômeno social. Deve ficar guardado por anos.
Já combinamos, também, em não recorrer à Internet para encomendar as que faltarem. Vamos pesquisar, correr atrás, fazer muitas trocas até completar o álbum. Se ficar faltando apenas uma, como naquela propaganda atual da Mastercard, quem sabe um dia a gente encontra com o Pelé e tira uma foto dele para completar a coleção...
Educação financeira, a meu ver, também é isso. Gastar dinheiro com prazer. Quem quiser trocar figurinhas com a gente é só passar na banca da 106.
Prosperidade a todos!
Fonte: Portal Mais Ativos, por Álvaro Modernell