O crescimento dos programas de preparação para a aposentadoria (PPA) nas empresas reflete não apenas um aumento da preocupação com o futuro dos funcionários mais experientes. Eles servem também para ampliar os horizontes dos jovens talentos que vislumbram uma atitude socialmente responsável de suas companhias, tornando-se assim uma eficiente ferramenta de retenção num período em que a mão de obra qualificada anda escassa. "Estamos com doze projetos e novos estão entrando", afirma Karin Parodi, diretora geral da Career Center, consultoria especializada em gestão estratégica de recursos humanos. Karin, que começou a Career praticamente sozinha há nove anos, hoje já tem 50 profissionais trabalhando em programas de transição de carreira, PPA, "coaching" e gestão estratégica de recursos humanos.
"Este ano particularmente está havendo um boom", confirma Katia Raphael, diretora-executiva da Graphos Consultoria Empresarial, que já atendeu 700 executivos nos últimos quatro anos com PPA. Baseada em Belo Horizonte, a empresa atua principalmente com companhias dos setores siderúrgico e minerador e elevou este ano de 15 para 20 o número de clientes.
A maior demanda, entretanto, está longe de representar uma elevação do PPA aos primeiros postos entre as prioridades da política de recursos humanos das empresas, afirma Fernando Mantovani, diretor de operações da Robert Half, que recruta executivos.
Prova disso é uma pesquisa recente da consultoria que ouviu 290 empresas. Entre elas, 64% tinham executivos prestes a se aposentar, porém 54% disseram não ter nenhum plano de ação para substituir esses profissionais.
"As empresas geralmente têm uma visão imediatista, apagam os incêndios e deixam para depois questões como essa", explica Mantovani. Além disso, segundo o especialista, as poucas companhias que têm uma preocupação com a aposentadoria de seus empregados arrumam soluções improvisadas internamente, sem uma boa comunicação - o que deixa inseguros os que estão abaixo sobre o futuro deles dentro da organização.
"Há uma mudança clara, porém, no perfil da população brasileira e as empresas têm que se preparar." De acordo com as estatísticas oficiais, a expectativa de vida no país subiu três anos na última década, atingindo 72 anos em média. Até os anos 60, a maior parte da população era constituída por pessoas entre 14 e 59 anos.
A psicóloga Lucia França, especialista em envelhecimento, faz o mesmo diagnóstico. Ela alerta para o movimento etário da população brasileira dos últimos 40 anos, que aponta para uma redução da População Economicamente Ativa (PEA) em paralelo à queda da taxa de natalidade e ao aumento da expectativa de vida - que já aumentou 20 anos neste período.
Neste contexto, diz Lucia França, encostar as pessoas não é saudável nem inteligente. Ao contrário. É um desperdício de um talento que pode não ter mais força física, mas que tem experiência, maturidade e capacidade intelectual.
Fonte: Valor